Um semáforo na estrada da morte
Na Cisjordânia, parar num semáforo pode ser dos momentos mais tensos que existe. Sobre como Ali Awad dá boleias em Masafer Yatta como resistência.
Texto publicado originalmente pelo Fumaça, na newsletter semanal da redação.
As colunas do carro já não cantam música. Se na noite anterior berravam hip-hop palestiniano, janela aberta, volante a tremer com a intensidade do baixo, como que gritando “fodam-se” às centenas de carros que passavam em todas as direções, de matrículas amarelas, “IL”, transportando milhares de colonos sionistas em terra roubada, agora o que berra dentro do jeep de Ali Awad é um silêncio ensurdecedor. O mostrador do gasóleo está a zeros há vários quilómetros. Há várias horas, aliás. Não na reserva, como se diz, mas “a zeros”. O caminho que fazemos é de Tuba, uma aldeia em Masafer Yatta, até al-Khalil (Hebron), com paragem na cidade de Yatta para deixar uma gente que vinha à boleia.
Tentamos aí mesmo uma estação de serviço. Nada, não há gasóleo. Mais à frente, paramos noutra. Também nada. “Às vezes, os sionistas decidem apenas não deixar passar combustível para este lado”, diz o membro do coletivo Youth of Sumud, jornalista e residente em Tuba, enquanto puxa mais um bafo do cigarro que leva nos dedos. Continuamos rumo a Norte, mas até chegar a Hebron são mais de 50 quilómetros. Isto contando que os portões militares à entrada de cada aldeia, vila e cidade estejam abertos, que não seremos obrigados a fazer desvios por estradas mais longas, mais esburacadas. Quanto ao tempo de viagem, nunca se sabe até se a percorrer: uma hora, duas horas, três horas, quatro horas? Basta que um par de soldados sionistas decida fechar um dos checkpoints e serão horas parados no trânsito, à espera que reabra.
Ali Awad termina o cigarro e, num ato contínuo, acende outro. Os anos de condução sob o stress da ocupação ensinaram-lhe um malabarismo dificilmente atingível por quem aqui não vive: conduzir com uma mão, enrolar um cigarro com outra, procurar o isqueiro sempre perdido, acendê-lo. Tudo isto enquanto os olhos se mantêm postos em todos os espelhos, todas as janelas. Se passa um veículo militar ao fundo, Ali Awad espera um par de minutos até que a poeira que levantou assente antes de avançar. Se um carro da polícia se encontra parado ao pé de um checkpoint, muda de rota para não arriscar ser, mais uma vez, detido.

A viagem segue mais devagar do que usual, para poupar combustível, e Ali Awad fica mais tenso a cada quilómetro que passa. Não fala, não atira as piadas que lhe são costume, não responde a perguntas. Por mais vezes que se visite a Cisjordânia, a paisagem ao longo da Route 60, que atravessa toda a Cisjordânia, nunca cessa de ser avassaladora: milhares de bandeiras sionistas por toda a parte, colonatos cada vez maiores de um lado e de outro, soldados parados em posição de tiro, apontando para cada carro palestiniano que por aí se conduza, estradas secundárias que apenas colonos podem atravessar, paragens para autocarros que apenas colonos podem apanhar e, claro, estações de serviço onde apenas colonos podem abastecer. Passamos uma, duas, três destas estações de serviço. Não é necessário sequer perguntar o porquê de não parar, mesmo em emergência. É assim o apartheid.
Há quem chame à Route 60 “a estrada da morte”. Não por serem frequentes os acidentes rodoviários; antes por serem frequentes os ataques. Qualquer passo em falso, qualquer movimento mais brusco, qualquer paragem de emergência ao longo desta estrada pode ser fatal. E ficar sem combustível aqui mesmo seria ficar exposto a colonos e soldados sionistas, sem qualquer lugar para onde fugir. Tudo à nossa volta está tomado pela colónia.
“Que se foda este semáforo”, diz Ali Awad, enquanto olha para o contador do combustível, que não se mexe desde que saímos de Tuba. Paramos no vermelho e, num par de segundos, estamos encurralados por cerca de uma dezena de carros de colonos. Em frente, atrás, na faixa à esquerda, na mais à direita. Um jeep do exército está estacionado na berma da estrada. Duas torres de vigilância encontram-se a uns metros de nós. Mais dois soldados apontam armas à estrada, um para cada direção. E o que são talvez uns segundos de espera parecem horas. Cruzamentos como este são dos mais tensos lugares da Cisjordânia. Não há quem conte, um a um, o número de pessoas palestinianas a quem lhes foi roubada a vida aqui, mas as histórias de mártires em semáforos nesta estrada multiplicam-se com o passar dos anos, e são parte da memória viva de quem por aqui conduz.

O semáforo muda de cor. Ali Awad saca mais um bafo do cigarro, respira fundo e carrega no acelerador, lentamente. Cerca de uma hora depois, chegamos a al-Khalil. O checkpoint à entrada da cidade está aberto para entrar, fechado para sair. E aí, um par de soldados, talvez com menos de 20 anos, em amena cavaqueira, calmamente pedindo a identificação de cada passageiro, revistando cada carro. É possível que sejam horas de espera para quem tenta sair da cidade. Para nós, a entrada é rápida e, finalmente, conseguimos abastecer.
A experiência de conduzir por estradas sob ocupação colonial não é estranha para Ali Awad, que tem dedicado a sua vida à organização coletiva em toda a Masafer Yatta, conduzindo quem precisa por estradas de terra, checkpoints, cidades, aldeias fechadas, colonatos e postos avançados. Leva crianças à escola, entrega mantimentos, acompanha jornalistas. Ali Awad conduz dezenas, centenas de quilómetros por dia ao serviço da comunidade para que esta continue viva, para que ninguém tenha de abandonar as suas terras — sumud, diz-se, em árabe.

Em janeiro, colonos sionistas queimaram o seu carro na aldeia de Tuba em plena luz do dia. Não foi um ataque aleatório. Tinham como alvo, especificamente, o carro de Ali Awad. O objetivo era claro: matar a resistência atacando os esforços de apoio mútuo dentro da comunidade de Masafer Yatta. Ali Awad viu o carro a extinguir-se em chamas. No final, recorda-se, só restavam as rodas do carro. Mas por mais que tentem destruí-lo, até o carro pratica sumud. Ali Awad recolheu milhares de euros numa campanha de crowdfunding internacional e dispôs-se a reconstruir o carro de novo. E, nove meses depois, ainda está aqui.
Passei três dias com Ali Awad, em Tuba, no início de outubro. Ofereceu boleias a dezenas de pessoas. No total, foram mais de mil quilómetros. Cada dia, desde o momento em que acordou até ao momento em que se deitou, depois do turno de vigilância que faz todas as noites, até depois das 3h da manhã, para tentar prevenir ataques de colonos. Perguntei-lhe porque continua a fazer tudo isto depois de tantos, tantos anos. “É o mínimo que posso fazer pela minha comunidade”, respondeu.