Destrói-se a casa, não a resistência

Estamos de volta à Palestina, para reportar sobre a ocupação colonial sionista e a resistência palestiniana. Ricardo Esteves Ribeiro traz-nos a história de uma casa prestes a ser destruída pelo exército sionista e como a comunidade a procura manter de pé.

Destrói-se a casa, não a resistência

Texto publicado originalmente pelo Fumaça, na newsletter semanal da redação.

Um bebé enrola-se sobre o próprio corpo, imitando a forma de um feto no interior do útero. Está completamente despido. Junto dele, um outro e ainda outro, todos com a mesma postura, curvados ora dando o dorso ao sol, ora defronte ao chão, ora de lado. A imagem expande ao dar-se dois passos atrás, como que usando os dois dedos da mão para fazer zoom out. Entende-se agora que os bebés são dezenas ou até mais de cem. Encavalitam-se uns nos outros, talvez protegendo-se do frio, talvez abraçando-se em solidariedade. E repara-se também que, de cada um deles, sai do umbigo uma espécie de cordão umbilical em forma de ramo de árvore. Dois passos atrás mais e fica claro que cada ramo, cada cordão se junta mais abaixo, num grande tronco de uma árvore, uma oliveira cujos frutos são crianças.

“Simboliza a vida que nasce das oliveiras [na Palestina]”, diz Hafez Huraini, sobre a enorme ilustração que, há uns anos, um artista italiano estampou na casa de visitas de Twani, uma das aldeias de Masafer Yatta, no sul da Cisjordânia. A casa de dois andares tem servido como centro de operações do coletivo Youth of Sumud. É sala de reuniões, posto de observação e prevenção de ataques de colonos, cozinha comunitária, escritório… A casa foi ideia de Hafez Huraini, há muitos anos; muito antes de, em 2022, o Supremo Tribunal de Justiça sionista ter declarado toda esta área uma zona de treino militar a ser evacuada e demolida a qualquer momento. Em 2014, deu-se início ao processo que levou à construção, em 2020, desta casa. Foi um ano de trabalho diário para pôr este sonho de pé.

Desde aí, a casa de visitas de Twani terá recebido centenas de pessoas — militantes internacionais que passam tempo por cá, usando o privilégio do seu passaporte e da cor da pele como forma de proteção, em solidariedade com as populações das aldeias em volta; jornalistas que reportam sobre a limpeza étnica que o Estado sionista tenta implementar e a consequente resistência diária das comunidades; diplomatas e outros representantes políticos, que vêm conhecer a realidade no terreno; e tanta outra gente.
Nos últimos anos, esta casa, de onde te escrevo agora, deu também guarida a quase toda a redação do Fumaça, que reporta o que por aqui se passa desde 2022.

É manhã cedo, o sol ainda não aquece como mais tarde, neste semi-deserto a sul dos montes de Hebron. Tomo o primeiro café do dia no pátio da casa de visitas, com Hafez Huraini, histórico militante da resistência popular na Cisjordânia. Foi ele quem colocou as duas cadeiras de plástico pretas em que nos sentamos num desenho diagonal que nos deixa meticulosamente de frente para o portão da entrada, como que esperando quem vier. É assim que se passa os dias por aqui, — esperando quem vier — desde que, no final de setembro, a colónia sionista emitiu uma ordem de demolição para esta casa de visitas. A decisão não foi surpreendente para Hafez Huraini: “Eu espero sempre o pior da ocupação. Tem sido um longo processo para a tentarem demolir.”

Não se pode dizer sequer que a destruição de casas em Masafer Yatta seja algo anormal. Acontece todos os meses, seja em Twani ou em qualquer outra das cerca de duas dezenas de aldeias da região — pessoas palestinianas estão impedidas de erguer qualquer construção que seja. Mas esta, em particular, não é apenas uma casa. É um exemplo de solidariedade internacional e apoio mútuo. É, em si, a resistência. “É por isso que existiu uma pressão enorme [para a sua demolição]”, diz Hafez Huraini.

Poucas horas depois de receberem a carta do exército, estava já a casa de visitas vazia. Janelas fora, cozinha fora, beliches fora. A comunidade tinha-se juntado para tentar garantir que, antes de o edifício ser reduzido a escombros, o interior seria guardado para se dar novo uso. Não era uma desistência deste sonho em forma de casa; era antes sumud, perseverança. 

— É verdade, eles vão destruir o edifício, nós vamos sofrer, mas nunca vão destruir a nossa vontade de continuar. 

— Ou seja, vocês estão já a pensar no que vem a seguir?

— Sim, claro.

— Mas deve ser muito cansativo estar sempre a pensar nisto.

— Como nós temos a determinação de continuar, isto nunca nos cansa. Porque, khalas, esta é a situação. Nós temos de agir e não dar um passo atrás. Se damos um passo atrás, morremos. E nós não queremos morrer.

A casa de visitas de Twani ainda não foi demolida, mas a sua destruição pode acontecer a qualquer instante. E, quando os soldados entrarem Twani adentro para o fazer, o mais provável é encontrarem Hafez Huraini, já com as rugas de uma vida inteira ao serviço da resistência palestiniana, com as cicatrizes de incontáveis ataques de colonos e soldados, as memórias de tantas, tantas experiências na prisão, sentado numa das cadeiras de plástico pretas de frente para o portão da entrada, a fumar um cigarro e a beber café, fazendo planos quanto à próxima casa a construir. É bem provável que a casa de visitas de Twani vá abaixo em breve, mas dificilmente a resistência de Twani e de toda Masafer Yatta cairá com ela. Essa, acredito piamente, ficará para sempre. Tal como uma oliveira antiga da qual se corta um ramo, dois, três, talvez até o tronco. Mais tarde ou mais cedo, um novo ramo brotará.